Eficiência Alimentar: Oportunidade para aumentar o lucro sem gasto

Animais Nelores se alimentando em cocho inteligente produzido pela Intergado

Todo pecuarista sabe que o sucesso da atividade vem da busca por bom desempenho animal associado a um baixo desembolso. Gastar e não ter resultado é a receita do fracasso. Quando falamos dessa taxa de conversão entre o que se investe e o que se colhe, estamos falando de eficiência, e nesse texto será abordada a eficiência alimentar como uma oportunidade para tornar a pecuária de corte mais rentável, mais eficiente.

Luigi Francis Lima Cavalcanti, Médico Veterinário, Doutor em Zootecnia. Pesquisador na empresa Intergado. (luigi.cavalcanti@intergado.com.br)
Luigi Francis Lima Cavalcanti, Médico
Veterinário, Doutor em Zootecnia.
Pesquisador na empresa Intergado.
(luigi.cavalcanti@intergado.com.br)

A fazenda como um todo possui ineficiências inerentes que fazem com que parte do que se aporta na entrada do sistema se perca no processo. Estamos aqui falando das perdas com astagens degradadas, vacas não prenhes, mortalidade acima do normal, entre outras falhas produtivas. Entretanto, a despeito destes índices, há de se pressupor que animais possuam dferentes capacidades de usufruir dos nutrientes presentes em uma dieta para produzir carne, sendo sobre essa hipótese que se fundamentam as pesquisas e programas para melhoria da eficiência alimentar. Felizmente, essa hipótese tem se provado válida. Existem diferenças individuais, herdáveis e ainda, tirar proveito deste recurso natural é uma oportunidade de negócio na atual conjuntura da pecuária brasileira. Antes do aspecto econômico, é necessário, porém, entender de onde vem essa eficiência, como medi-la, e por fim como obtê-la.
Muito se especula sobre o porquê da diferença entre animais menos e mais eficientes. No início do século, revelou-se que a diferença observada entre linhagens divergentes para a característica eficiência alimentar poderia ser atribuída predominantemente ao metabolismo tissular, turnover proteico e stress metabólico (37% de importância). Revelaram-se, posteriormente, diferentes expressões de genes relacionados ao metabolismo de lipídeos e glicose, sendo possível correlacionar redução da quantidade de gordura em animais mais eficientes da raça Angus à baixa atividade de genes associados à lipogênese. Essa redução na taxa de deposição de gordura poderia supostamente impactar a qualidade da carcaça e aspectos reprodutivos. De fato, embora mereça cautela e associação com outros critérios de seleção, em pesquisas nacionais com gado Nelore, se mostrou pouco ou nenhum efeito da seleção para eficiência alimentar sobre tais características que restrinjam sua adoção.
Atualmente, para mensuração da eficiência alimentar, utilizam-se cochos eletrônicos equipados com balanças que mensuram constantemente o peso dos cochos, sendo registrado como consumo, a diferença entre o peso do recipiente mais conteúdo, antes e após a visita ao equipamento por um indivíduo identificado eletronicamente. Para a obtenção do ganho de peso, um avanço recente foi a adoção de balanças eletrônicas voluntárias, caracterizada por uma plataforma disposta em frente a um bebedouro, realizando de forma automática a mensuração do peso corporal de um animal sempre que o mesmo for consumir água. O aumento decorrente do número de medidas do peso reduz drasticamente o erro associado à estimativa do ganho diário, facultando a redução do tempo de prova, trabalho e estresse animal quando comparada à pesagem tradicional. Em posse dos dados de consumo e ganho, basta dividir um pelo outro e obtém-se a eficiência alimentar. Todavia, computar a eficiência dessa forma simples levou à seleção indireta indesejável de animais mais pesados. A fim de desassociar a seleção para eficiência à seleção de outras características, surgiu a metodologia denominada Consumo Alimentar Residual (CAR). Nesse método, ajusta-se uma equação para estimar o consumo dos animais, baseado na performance e consumo medidos individualmente. A diferença entre o consumo individual observado (medido no cocho) e o esperado (calculado pelo grupo de animais), denominada por estatísticos como resíduo (daí o nome CAR), revela, quando positiva, isto é, maior que zero, que um animal comeu mais do que o esperado para seu peso e desempenho, portanto, menos eficiente, ao passo que animais CAR negativo são mais eficientes e desejáveis. É da baixa correlação entre o CAR e as demais características de interesse econômico que surge uma oportunidade econômica interessante.
Atualmente temos à disposição touros mais ou menos eficientes em todos os estratos dos rankings para as demais características. Ou seja, é possível filtrar dentre o roll de animais que já atendem a um determinado objetivo de seleção, aqueles que são mais eficientes a um custo virtualmente baixo, pois esta característica ainda é pouco explorada comercialmente e não compõe índices mais populares em vigor. O potencial financeiro oriundo da escolha de um touro mais eficiente é exemplificado na Tabela 1. Em um curral com 100 animais confinados, pode-se facilmente obter um aumento da lucratividade correspondente ao abate de aproximadamente 10 cabeças a mais, comparando-se a uma boiada mediana. A eficiência alimentar é um recurso ainda pouco explorado, requer pesquisas e mais dados devido à novidade, mas sem dúvida tem grande potencial para aumentar a lucratividade da pecuária brasileira.

Tabela – Efeito econômico do CAR sobre um curral de confinamento

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