A nova crise econômica – O que esperar para o mercado da carne bovina?

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A nova crise econômica – O que esperar para o mercado da carne bovina?

Por João Costa Junior

Os bons ventos para a indústria da carne bovina do ano passado foram tomados por uma onda de acontecimentos turbulentos na economia mundial em 2020, o que tem contaminado os mercados financeiros internacionais com uma forte onda de aversão ao risco, ocasionando a queda das principais bolsas de valores. A causa disso vem das preocupações dos países com o avanço do coronavírus e a crise no preço do petróleo.A cadeia produtiva da carne bovina está em estado de alerta, se perguntando até que ponto essa turbulência afetará a cadeia de forma positiva ou negativa.

Por isso, no texto de hoje falaremos mais sobre os atuais acontecimentos e prováveis desdobramentos que ocorrerão no mercado da carne bovina.

Entendendo o contexto

O coronavírus tornou-se um problema sanitário mundial nos últimos meses, com mais de 2 mil pessoas mortas na China – pais de origem do novo vírus – e vários outros países. Isso tem gerado transtornos para a economia, pois o país asiático é a segunda maior economia do mundo e um dos principais pontos de entradas e saídas de muitos produtos e insumos utilizados globalmente, como soja e minério de ferro. Ao fechar as suas fábricas, portos e fronteiras, com o objetivo de conter o coronavírus, há um impacto na cadeia de suprimentos e produção industrial global, afetando vários países, entre eles, o Brasil com o qual possui relações comerciais.

Para piorar ainda mais nessa turbulência, o petróleo tem passado por quedas de preços nesses últimos meses, resultado da diminuição da demanda do produto devido ao avanço do vírus. Para tentar contornar essa situação, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP propôs a Rússia – país que não faz parte da OPEP – reduzir a produção, porém não obteve êxito. Como resposta, a Arábia Saudita baixou o preço e aumentou a produção do produto, o que fez despencar a até 30% do petróleo do tipo Brent (maior queda desde a Guerra do Golfo).

Com a soma desses dois eventos, o mercado financeiro ficou instável, diminuindo os investimentos nas bolsas de valores. Como todo investidor não gosta de insegurança, ele migra para ativos mais seguros, por exemplo, o dólar. Em países que não possuem tantas exportações, por exemplo, o Brasil, há uma diminuição da oferta da moeda americana no mercado interno, o que leva a alta – como observado atualmente.

Essa combinação bombástica desencadeou uma crise das bolsas mundiais, e o Brasil não ficou de fora desse tombo, com uma queda de 10,02% do IBOVESPA na ultima segunda-feira (09 de março), resultando na paralisação das negociações, ação chamada circuit breaker*, que é uma parada das negociações por 30 min.

Além disso, no mesmo dia, o dólar bateu um recorde nominal, atingindo a casa de R$ 4,79. Nas casas de câmbio, a moeda chegou a ser comercializada por mais de R$ 5,00. Para tentar diminuir essa disparada, o Banco Central vendeu US$ 3 bilhões das reservas internacionais.

Impactos no mercado da carne bovina brasileira

A disseminação da peste suína africana no rebanho chinês abriu o mercado para a importação da carne bovina brasileira. Contudo, nos últimos meses, antes mesmo da disseminação do coronavírus, os frigoríficos no Brasil têm passado por problemas relacionados ao preço pago pelos importadores chineses. Muitos deles vinham solicitando descontos agressivos nas cargas já em alto mar, o que assustou muitos empresários.

Com o estouro do coronavírus e o fechamento dos portos na China impediram o descarregamento das importações no país asiático. Isso levou muitos navios a mudarem a rota para Cingapura, Tailândia e Vietnã, aumentando os custos da exportação para os frigoríficos brasileiros. Contudo, a ações de combate ao vírus tem permitido a reabertura e normalização das operações, elevando, assim, a procura (e os preços) do boi gordo no Brasil. Entretanto, o caos da logística gerou efeitos a curto e médio prazo, pois o governo chinês tem tomado ações para diminuir a circulação de pessoas nas ruas, o que impacta diretamente no consumo da carne bovina. Para se ter uma ideia, no mês de fevereiro, as exportações já apresentavam uma queda de 3% do volume na comparação com janeiro e caíram 6% ante o mesmo mês de 2019. Porém mesmo com a crise, os bons preços no mercado mundial resultaram em aumento de 9% da receita em comparação ao ano passado.

Ao olharmos internamente, o mercado do boi gordo no Brasil tem trabalhado com valores elevados a curto prazo, resultado do clima chuvoso que tem propiciado ao pecuarista a manter o gado no pasto por mais tempo, permitindo maior poder de barganha. Na segunda semana de março, o boi gordo variou de R$190,00 a R$204,00/@, com prazo de 30 dias para pagamento. A tendências dos pecuaristas é realizar vendas de animais para investir na reposição do gado, de olho nas condições das pastagens até o final de maio. Contudo, a diminuição das exportações para a China, fez com que a maior parte dos frigoríficos diminuíssem a compra de animais, devido ao preenchimento dos programas de abate para exportação. Diante desse contexto, houve um direcionamento dos produtos para o mercado interno, porém, os atuais valores do boi gordo não conseguem remunerar a carne vendida, o que gera frustrações para a indústria.

Em um panorama geral, a situação atual do mercado financeiro e o contexto mundial não tem impactado consideravelmente no mercado da carne bovina brasileira a curto prazo, porém o pecuarista deve estar atento, pois a economia está muito volátil, o que pode ocasionar mudanças nos ventos, direcionando o barco para caminhos tortuosos.

*Circuit break – Mecanismo adotado no Brasil e em outros mercados no mundo, serve para garantir proteção quando há grande instabilidade em momentos atípicos do mercado financeiro, por exemplo, quando as ações despencam mais de 10%.

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