Água, essencial na nutrição de bovinos de corte

Animal bebendo água em um bebedouro Intergado

Água, essencial na nutrição de bovinos de corte

Por Renato Tângari Dib

Qual a importância da água para você?

Com certeza várias respostas devem vir a sua mente, entre elas, a importância fisiológica. A água é o nutriente mais importante para a sobrevivência dos seres vivos, pois é o nutriente com maior porcentagem na constituição celular dos seres vivos. Por isso, desde pequenos somos instruídos a beber água, mas não é qualquer água. Ela deve ter quantidade e qualidade adequada, ser fresca, transparente e sem odor, o que permitirá o nosso crescimento de forma saudável.

Quando trazemos esse contexto para a produção animal, a importância da água não pode ser diferente, pois ela é essencial para o bom desempenho dos animais. Por isso, te faço duas perguntas:

1ª – Você avalia a qualidade e quantidade de água fornecida aos animais?

2 ª – Você beberia a mesma água disponível para o seu gado?

Se a resposta for não para as duas perguntas, então é provável que a produtividade de seu rebanho não vai bem. Apesar de muitos não pensarem nisso, da mesma forma que você precisa beber água potável e com qualidade, o animal também precisa.

Pensando nisso, o texto de hoje abordará os pontos importantes a serem considerados quando falamos do fornecimento de água de qualidade para bovinos.

Água – elemento essencial a vida

O nutricionista, ao formular uma dieta para os animais, considera os nutrientes essenciais, não somente em quantidade, mas em qualidade que atenda as exigências, sendo água, energia, fibra, aminoácidos, minerais e vitaminas e em situações de saúde, otimização da dieta e segurança alimentar, os aditivos.

Água é vida, pois os animais podem perder toda a gordura corporal, 50% da proteína e conseguem sobreviver, mas se perderem 10% da água do corpo, morrem.

Fase da Vida* Percentual de água
Embrião (concepção) 95%
Ao nascer 75 a 80%
Aos 5 meses de idade 66 a 72%
Adulto 40 a 65%
Produto Animal** Percentual de água
Leite 87% ±2%
Carne Magra 75% ±3%

*Maynard, Loosli, Hintz e Warner, 1984. | **Roca, 2015.

A água participa de funções essenciais à fisiologia e metabolismo dos animais, participando efetivamente na termo regulação corpóreo, funções no processo digestório, transporte, um ótimo solvente e lubrificante, transmite a luz e o som.

A eliminação de produtos residuais da digestão e do metabolismo, via urina e fezes, regulação da pressão osmótica do sangue, participa das secreções corporais, saliva, fluidos e leite, através da evaporação via respiração e pele na regulação da temperatura corporal.

Parâmetros de qualidade da água

Quando tratamos de qualidade de água, são vários os itens que merecem atenção que vão desde a fatores sensoriais como odor, sabor e limpidez; fatores físico químicos, pH, Total de Sólidos Solúveis (TSS) e dureza; e a sua composição química, metais pesados, pesticidas, herbicidas, nitratos, sulfatos e contaminantes como bactérias, algas e vírus, todos com impacto direto em consumo, saúde e desempenho animal.

Potencial hidrogeniônico, pH, que vão desde diminuição do consumo de água e consequentemente, de forma direta no consumo de alimentos, a distúrbios digestivos, diarreia e redução na eficiência alimentar. Amplitude normal do pH, de 6,5 a 8,4 não tem interferência na qualidade de água, não impactam negativamente na saúde e no resultado, na saúde da microbiota ruminal e do animal. Valores nos extremos, fora da amplitude citada, podem interferir na ingestão de água, efeitos deletérios sobre a microbiota ruminal e interrelações de antagonismo de minerais, assim como o TSS.

Em relação ao TSS, valores acima de 3.000 mg/litro começam a influenciar na saúde e performance. Os principais são excessos de fosfato, enxofre, nitratos e flúor (NRC, 1974; 2001. 2016). Em relação à dureza da água, que se relaciona com os teores de cálcio (Ca) e magnésio (Mg) presentes, acima de 61 mg/litro são indicativos de água dura (NRC, 1980; 2000; 2016).

Nitratos são merecedores de uma atenção especial, pois níveis acima do recomendado em segurança alimentar, em especial nitritos, que se ligam à hemoglobina, transformando em um composto que não transporta oxigênio, metahemoglobina, que causam riscos à saúde dos animais. Níveis de Nitrato até 130 e de nitrito 20 mg/litro, são prejudiciais e a níveis extremos, pode ocasionar até a morte. Igualmente prejudiciais, a presença de metais pesados, As, Pb, Hg, Ni, Cd, Cr.

animal morto no bebedouro

O consumo de água está relacionado diretamente com a temperatura ambiente, consumo de matéria seca, nível de produção, teor de umidade da ração, peso corpóreo, lactação, consumo de sódio e potássio e nível de inclusão de volumoso na ração. Existem muitas equações de predição que estimam a necessidade de ingestão de água, mas de um modo geral, os requerimentos são supridos, com 10 a 15% do peso corpóreo e para animais em lactação, 2 a 3 kg de água para cada quilo de leite produzido.

As variáveis frequência respiratória e temperatura retal, numericamente 23/minuto e 38,3ºC, respectivamente, indicam um animal sem stress térmico, acima destes valores, em uma faixa de valores, evidenciam que estão em stress, que em níveis extremos podem até mesmo levar à morte.

Ganho em peso, produção de leite, saúde, reprodução, gestação, são reduzidos quando tem restrição de água de qualidade, ficando comprometida as rentabilidades dos sistemas de produção.

O consumo de água pode mudar de acordo com a temperatura ambiente, idade do animal, ganho de peso, consumo, tipo de dieta, relação volumoso:concentrado, distância e acesso ao aos bebedouros.

Contudo, vamos indicar trazer um cálculo simples para que possamos entender como chegar ao volume de água necessário por dia:

  • Um lote de 100 animais, com peso de 400 kg.
  • 400 kg x 15% do peso vivo = 45 litros de água/dia.
  • 100 animais x 45 litros por cabeça = 4500 litros de água dia.

bebedouro limpo

Qualidade da água e o desempenho dos animais

O fornecimento de água em qualidade e quantidade para os animais não é um luxo para os animais, mais uma necessidade para obtermos maior rentabilidade nos sistemas de produção. Trabalhos consistentes demonstram que o fornecimento de água limpa, com qualidade e em quantidade, tem um efeito positivo na ingestão de água e diretamente no desempenho zootécnico.

Água limpa e tratada, (Willms et al 2000) proporcionou um efeito direto na eficiência de produção na ordem de 10,3 a 23,4% superiores, aos de água de lagoa, corroborados por Vieira (2002) apresentou até melhores resultados.

Porath et al., 2002; Bica et al., 2006; Santos & Balsalobre, 2011, demonstraram que a água de qualidade proporcionou ganhos adicionais de 105 a 207g/dia. São valores muito altos, que influenciam diretamente o resultado zootécnico e econômico da atividade.

A partir dos dados acima, nós podemos fazer uma simulação de quanto perderíamos ao não mantermos a qualidade da água em um confinamento.

Vamos considerar um confinamento de 90 dias, com uma lotação de 100 animais. Considerando que a manutenção da qualidade da água nos bebedouros tem ganhos médios adicionais de 150 g/dia animal. Vamos calcular:

  • 150 g/dia animal x 100 animais = 15 kg a mais de ganho de peso.
  • 15 kg x 90 dias de confinamento = 1350 kg a mais no lote.
  • Preço da arroba em R$6,00/kg = R$8100,00 para o lote.

Você vai deixar de ganhar R$8100,00 a mais em cada lote de 100 animais.

Vamos avançar mais um pouco, se você descontar o salário de R$2000,00 de um colaborador responsável somente pela limpeza dos bebedouros, você ainda assim teria R$6100,00 para cada 100 animais.

Fica muito claro o quanto é rentável a manutenção da limpeza dos bebedouros e qualidade da água. Por isso, como regra geral, indicasse que os bebedouros em situações de confinamento devem ser lavados todos os dias e nos pastos pelo menos uma vez por semana.

Em suma a água que deveríamos ofertar aos animais é aquela que teríamos coragem de beber, simples assim. E digo sempre, que a diferença está nos detalhes, quem quer faz.

Por fim, te fazemos a seguinte pergunta, você já visitou o bebedouro dos seus animais hoje para verificar a disponibilidade e qualidade da água fornecida aos animais?

Quer saber mais informações sobre o assunto, veja o Conexão Intergado de 20/05/2020, onde falamos um pouco sobre o tema: “Qualidade da água na nutrição da pecuária de corte”.

Confira como foi o bate papo no vídeo abaixo:

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